Contagem da USP aponta público bem menor em blocos de carnaval do que números divulgados em SP

  • 25/02/2026
(Foto: Reprodução)
A cantora Daniela Mercury desfila com o bloco Pipoca da Rainha pela Rua da Consolação, na região central da capital paulista, no encerramento do carnaval 2026 em São Paulo. DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO A estimativa de público do bloco Pipoca da Rainha, comandado por Daniela Mercury, foi de cerca de 20 mil pessoas, segundo levantamento feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). O número é cem vezes menor do que os 2 milhões de foliões divulgados pela organização do bloco. O cálculo foi realizado pela professora Mariana Aldrigui, especialista em políticas de turismo urbano da USP, em parceria com o Monitor do Debate Político, núcleo de pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A metodologia é a mesma usada há anos pelo grupo para estimar público em grandes manifestações políticas no Brasil (leia mais abaixo). Segundo pesquisadores, a contagem real de público é importante porque orienta o planejamento e a segurança da cidade. Números inflados podem distorcer decisões sobre transporte, policiamento, limpeza urbana e banheiros químicos, além de comprometer a transparência no uso de recursos públicos. O desfile comemorou os 10 anos do bloco de Daniela Mercury em São Paulo e ocorreu no domingo (22), na Rua da Consolação, no Centro, durante o pós-carnaval. O show começou por volta das 14h e reuniu foliões ao longo de toda a tarde. Daniela Mercury desce a Rua da Consolação com megabloco De acordo com o relatório técnico, os pesquisadores estimaram a presença de 20 mil pessoas, com margem de erro de aproximadamente 12%, o que representa uma variação de cerca de 2,4 mil pessoas para mais ou para menos. “Mesmo considerando a margem de erro e possíveis oscilações ao longo do desfile, o público ficou muito distante da casa dos milhões”, afirma Mariana. O estudo também analisou outro megabloco do carnaval paulistano, o Sertanejinho do Teló, na região do Ibirapuera, e chegou a um número semelhante: 21 mil pessoas, com margem de erro de cerca de 2,5 mil. A organização do bloco, porém, estimou o número de 1 milhão de foliões. De acordo com a professora, a escolha dos blocos levou em conta critérios operacionais e técnicos, principalmente a disponibilidade de pilotos e drones nos dias dos desfiles e a possibilidade de delimitar com precisão a área ocupada pelos blocos. Megabloco da cantora Pabllo Vittar levou multidão ao Ibirapuera, na Zona Sul de SP Fábio Tito/g1 Segundo a pesquisadora, a dinâmica do bloco da Daniela Mercury contribuiu para uma estimativa mais estável. Por isso, o estudo afirma que nenhum dos blocos analisados ultrapassou 100 mil pessoas no total, mesmo considerando todo o período do desfile. “Não houve uma substituição total de público ao longo do tempo. As pessoas chegaram e permaneceram. O próprio formato do circuito dificulta entradas e saídas rápidas”, diz. Procuradas pela reportagem, as equipes do Pipoca da Rainha e do Sertanejinho do Teló não explicaram, até a última atualização, como a contagem foi realizada. Como a contagem foi feita O tema causa discussão há anos, sobretudo em protestos políticos, porque faltam critérios claros e transparência na contagem de público. Segundo Mariana, pesquisadores, como os da USP, usam métodos técnicos e margem de erro, enquanto o poder público e organizadores divulgam estimativas sem detalhar como chegam aos números. “Ter um número mais próximo da realidade não diminui o carnaval. Pelo contrário, ajuda o poder público a planejar melhor segurança, transporte e serviços urbanos com base em dados concretos”, afirma Mariana. A contagem foi baseada em fotografias aéreas captadas por drones, posicionados em ângulo perpendicular ao solo (90 graus), o que reduz distorções de perspectiva e permite identificar cada pessoa individualmente. 📷 Drones tiram fotos na posição vertical; a divisão é feita por perímetro, podendo ser de um quarteirão inteiro ou de meio quarteirão. 🖥️ Um software excluí imagens sobrepostas, para não contar as mesmas pessoas duas vezes. ➕ Cria-se uma grande foto na horizontal, juntando todas as fotos verticais. 👥 Um software treinado para contar cabeças aponta uma estimativa do número de pessoas na imagem. No caso do bloco da Daniela Mercury, as imagens foram feitas em três momentos distintos do desfile, nos seguintes horários: 15h45 16h20 17h00 Segundo o documento das análises, as fotos cobriram toda a área ocupada pelo bloco na Rua da Consolação. Para evitar sobreposição, as imagens foram organizadas em mosaicos, permitindo a visualização completa do espaço. Antes da captura das imagens, os pesquisadores delimitaram com precisão a área do evento, com base em um estudo técnico da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico da Engenharia (FDTE), contratado pela própria Prefeitura de São Paulo, que mapeia os trechos oficialmente destinados aos blocos de carnaval. As imagens foram analisadas com o software Point to Point Network (P2PNet), um sistema de inteligência artificial desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Zhejiang, na China, em parceria com a empresa Tencent. O programa foi treinado com bancos de dados internacionais e também com imagens de multidões brasileiras anotadas por pesquisadores da USP. “É um método que permite contagens precisas mesmo em áreas densas e irregulares, como blocos de carnaval”, explica Mariana. Segundo a pesquisadora, a dinâmica do bloco da Daniela Mercury contribuiu para uma estimativa mais estável. “Não houve uma substituição total de público ao longo do tempo. As pessoas chegaram e permaneceram. O próprio formato do circuito dificulta entradas e saídas rápidas”, diz. Por isso, o estudo afirma que nenhum dos blocos analisados ultrapassou 100 mil pessoas no total, mesmo considerando todo o período do desfile. Falta de transparência No pré-carnaval, o bloco da Ivete Sangalo levou 1,2 milhão de pessoas ao Ibirapuera, segundo dados divulgados pela PM. A polícia explicou que o cálculo foi feito com base nas imagens aéreas captadas pelo helicóptero e pelos drones da PM, associadas ao georreferenciamento da área do Parque Ibirapuera e à análise técnica da densidade de público por metro quadrado. Mariana afirma, no entanto, que não há transparência sobre como são feitas as contagens divulgadas por organizadores, pela Polícia Militar ou por órgãos da prefeitura. Segundo ela, não existe um documento público que explique, de forma técnica, como se chega a números como 1 ou 2 milhões de pessoas em um único bloco. Ela também critica o uso do termo “foliões”, que pode inflar os dados ao contabilizar a mesma pessoa várias vezes ao longo do dia. “Uma pessoa pode ir a três blocos diferentes e ser contada três vezes. Isso só não é um problema se a metodologia for explicitada, o que não acontece”, afirma. “Quando se fala em milhões de pessoas simultaneamente, isso impacta decisões sobre segurança, transporte, banheiros, limpeza urbana e o funcionamento da cidade. Sem método claro, o número vira peça de marketing.” Para ilustrar a diferença de escala, a pesquisadora comparou os números divulgados no carnaval com grandes shows recentes. Segundo ela, o show de Bad Bunny realizado em São Paulo no último fim de semana estava “ultralotado”, mas reuniu cerca de 90 mil pessoas, número muito inferior aos milhões citados em alguns blocos. “A desocupação de um estádio com 90 mil pessoas leva quase duas horas. Isso mostra como o nosso olhar não está treinado para lidar com milhões: volumes de dezenas de milhares já são enormes”, afirma, ao argumentar que estimativas na casa dos milhões não se sustentam do ponto de vista físico e operacional.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2026/noticia/2026/02/25/contagem-da-usp-aponta-publico-bem-menor-em-blocos-de-carnaval-do-que-numeros-divulgados-em-sp.ghtml


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