COP15 das espécies migratórias começa nesta segunda (23); veja o que está em jogo

  • 23/03/2026
(Foto: Reprodução)
Onça-pintada e filhote no alto de árvore, no Pantanal. Bruno Sartori/Arquivo Pessoal Pela primeira vez na história, o Brasil está no centro de um debate multilateral sobre a vida selvagem que migra. A partir desta segunda-feira (23), Campo Grande (MS) recebe a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a COP15 da CMS, nas siglas em inglês, e o país não é apenas o anfitrião. Assume também a presidência da convenção pelos próximos três anos, comprometendo-se a liderar as negociações globais sobre a proteção de animais que cruzam fronteiras durante seus ciclos de vida. O encontro acontece até o dia 29 de março e deve reunir cerca de 3 mil pessoas: representantes de mais de 130 países, cientistas, delegações governamentais, organizações da sociedade civil, povos indígenas e comunidades tradicionais. E a escolha de Campo Grande não foi aleatória. A cidade é porta de entrada para o Pantanal, a maior planície alagável do planeta, compartilhada por Brasil, Bolívia e Paraguai, e está no coração da agenda desta edição. Entenda mais abaixo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O que é a CMS (e por que ela importa) A Convenção sobre Espécies Migratórias existe desde 1979. É o único tratado global dedicado exclusivamente à conservação de animais que cruzam fronteiras nacionais ao longo de seus ciclos de vida. Negociada em Bonn, na Alemanha, e por isso também chamada de Convenção de Bonn, ela entrou em vigor em 1983 e hoje conta com 132 países mais a União Europeia como signatários. O Brasil, contudo, só aderiu à convenção em 2015, mas desde então passou a ocupar posição estratégica no processo. A lógica da CMS é simples: de nada adianta proteger um animal em território brasileiro se ele será caçado ou encontrar o habitat destruído nos países por onde também passa. Por isso, a convenção organiza as espécies em duas listas: No Anexo I, ficam as espécies ameaçadas de extinção, que exigem proteção imediata e rigorosa por parte de todos os países onde ocorrem. No Anexo II, as espécies cujo estado de conservação é desfavorável e que dependem de cooperação internacional coordenada para sobreviver. Essas listas são atualizadas a cada três anos, justamente durante a COP, que é o momento em que os países se sentam à mesa, apresentam evidências científicas, negociam inclusões e aprovam planos de ação conjuntos. "As espécies não têm uma governança territorializada: é uma governança em fluxo. Se não tiver cooperação, se não tiver parceria, fica muito difícil que a gente cuide não só da espécie, quanto dos seus habitats”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em uma coletiva de imprensa na última semana. Vista da cidade de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul Silas Ismael O que está em debate As negociações desta semana envolvem mais de 100 itens de agenda. Entre os mais relevantes está a análise de 42 propostas de inclusão de novas espécies nos anexos da convenção. O processo é rigoroso: cada proposta passa pelo Conselho Científico da CMS, que avalia se a espécie de fato cruza fronteiras de forma previsível e regular, e qual é o seu estado de conservação. "Qualquer vez que um país propõe adicionar uma espécie ao tratado, ele precisa apresentar as evidências científicas e mostrar qual é a base dessa proposta. Esse material é então analisado pelo Conselho Científico da Convenção antes de chegar à COP”, explica Amy Fraenkel, secretária-executiva da Convenção. Entre as espécies cujas propostas devem ser votadas estão o tubarão-martelo (Sphyrna mokarran), a coruja-das-neves (Bubo scandiacus), a ariranha (Pteronura brasiliensis), a hiena listrada (Hyaena hyaena) e o surubim-pintado (Pseudoplatystoma corruscans), um peixe amazônico para o qual o Brasil propõe inclusão no Anexo II. Além das listas, a COP vai debater planos de ação concretos. Um dos mais relevantes para o Brasil é o Plano Regional de Conservação dos Bagres Migradores Amazônicos, construído ao longo de meses por seis países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) e que será submetido à aprovação durante a conferência. O plano reconhece que esses peixes são fundamentais para a segurança alimentar de milhões de pessoas nas margens dos rios amazônicos e que a pesca, inclusive a artesanal, precisa de marcos regulatórios transnacionais. Ariranha flagrada em câmera de monitoramento Instituto Mamirauá O que pode sair da conferência A COP15 deve encerrar com a aprovação de diversos documentos, entre resoluções, planos de ação, revisões dos anexos e uma declaração ministerial de alto nível, que pode vir a ser chamada de Declaração do Pantanal. Entre os resultados concretos esperados estão a inclusão de novas espécies nos dois anexos da convenção, a aprovação do plano regional para os bagres amazônicos, o lançamento formal do relatório sobre peixes migradores de água doce e a definição do orçamento do secretariado da CMS para os próximos três anos. "Esperamos sair desta COP com muito trabalho pela frente, dando continuidade aos esforços já em curso, incorporando os novos avanços científicos e fortalecendo a ambição para enfrentar as ameaças que já conhecemos contra essas espécies”, resumiu Fraenkel. A conferência também deve deixar uma agenda densa para o intervalo até a próxima COP, prevista para 2029. Nesse período, o Brasil manterá a presidência do processo, o que representa tanto uma oportunidade diplomática quanto uma responsabilidade concreta: monitorar a implementação das decisões aprovadas em Campo Grande e articular novos países para o tratado. LEIA TAMBÉM: Onça, aves raras e morcegos: os animais do Pantanal que estão na COP15 Adeus, sabão? Spray cria efeito 'antissujeira' que permite limpar roupas só com água À deriva no Mediterrâneo, 'navio-fantasma' russo vira bomba ambiental Gato-do-mato ameaçado de extinção é registrado em parque no RJ

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/03/23/cop15-das-especies-migratorias-veja-o-que-esta-em-jogo.ghtml


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