Prédio tombado pelo patrimônio histórico em SP pode ser 'destombado' após pedido da própria dona: 'Não tem relevância'
10/03/2026
(Foto: Reprodução) Prédio tombado pelo patrimônio histórico em SP pode ser 'destombado'
Um prédio tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo pode perder essa proteção após um pedido da própria proprietária do imóvel. O edifício, localizado na Avenida Angélica, em Higienópolis, foi reconhecido em 2024 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
No entanto, a empresa dona do imóvel entrou com recurso afirmando que o local não tem relevância arquitetônica, urbanística ou afetiva.
O prédio abriga a Escola Panamericana de Arte e Design e chama atenção pela arquitetura. A estrutura metálica vermelha fica aparente tanto do lado de dentro quanto do lado de fora do edifício. Túneis em formato cilíndrico formam as pontes de acesso e, no topo, há um arremate em forma de pirâmide.
O projeto é do arquiteto paulistano Siegbert Zanettini e foi concebido entre os anos 1970 e 2000, período marcado pela arquitetura pós-moderna.
No recurso apresentado ao Conpresp, a empresa dona do edifício argumenta que o tombamento não pode ser banalizado para servir de homenagem a arquitetos ou impor restrições consideradas descabidas ao uso do imóvel.
O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) defende a preservação do edifício e afirma que ele representa um período específico da arquitetura paulista. Segundo a coordenadora da CAU-SP, Maíra Barros, o prédio é um exemplo importante do modo de fazer arquitetura entre as décadas finais do século XX:
“Além de ser um marco do modo de fazer arquitetura dos anos 1970 até os anos 2000, focado na pós-modernidade, ele traz técnicas construtivas que são muito peculiares daquela época. Por isso é importante ter esse exemplar reconhecido. Ter essa relação com a rua, com os acessos facilitados, sem uma divisão muito significativa entre rua e edifício, a permeabilidade visual e também para o pedestre, são atrativos que valorizam além das cores utilizadas, que são emblemáticas daquele período”.
O prédio da Escola Panamericana de Arte e Design na Avenida Angélica, esquina com a rua Pará, em Higienópolis, que teve processo de tombamento aberto no Conpresp.
Rodrigo Rodrigues/g1
A votação sobre o recurso que questiona o tombamento da Escola Panamericana estava prevista para esta segunda-feira (9), durante reunião do conselho responsável pelo patrimônio da cidade. A análise, no entanto, foi adiada.
O presidente do Conpresp acolheu um pedido da empresa proprietária do imóvel para que os conselheiros façam uma visita ao local antes de tomar uma decisão. Com isso, a votação foi suspensa temporariamente, e não há data para a nova sessão.
Processo de tombamento
O processo de tombamento do prédio na Avenida Angélica foi aberto depois que outro edifício da mesma escola, na Rua Groenlândia, nos Jardins, foi demolido em 2021.
O projeto também era de Siegbert Zanettini e acabou indo ao chão antes que o Conpresp tivesse a oportunidade de avaliar sua importância arquitetônica. No lugar do antigo prédio, foi construído um edifício residencial de alto padrão.
Casos semelhantes têm alimentado o debate sobre a preservação do patrimônio arquitetônico em São Paulo. Em abril de 2025, um prédio construído nos anos 1980 pelo escritório do arquiteto modernista Rino Levi, que ficava em Pinheiros, também foi demolido.
O imóvel fazia parte do acervo de estudos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), mas, sem a proteção do órgão municipal de patrimônio, acabou sendo transformado em entulho.