'Vale o Escrito', 'Donos do Jogo', 'Corrida dos Bichos'... como o Jogo do Bicho é retratado nas telas?
01/04/2026
(Foto: Reprodução) Jogo do bicho nas telas: linha do tempo mostra evolução do tema em 70 anos
O universo do jogo do bicho é uma das referências estéticas mais duradouras da teledramaturgia brasileira. Uma mistura de violência, corrupção, vício em apostas e Carnaval. Nada mais Brasil.
Mas o mundo da contravenção mudou bastante nos últimos tempos. E a televisão, claro, tentou acompanhar.
O bicheiro deixou de ser o apontador romântico de "Amei um Bicheiro" (1952) ou o malandro carismático de "Senhora do Destino" (2004), para virar o mafioso violento de superproduções como "Os Donos do Jogo" (2025).
Essa trajetória ganha um novo capítulo em 2026 com o lançamento de "Corrida dos Bichos" (Prime Video). O filme leva a contravenção para um lugar inédito: uma distopia futurista onde o jogo evolui para uma competição estilo "Jogos Vorazes".
O g1 mapeou sete décadas de representações e ouviu especialistas para entender por que, 70 anos depois, o público continua hipnotizado pelo submundo da contravenção.
No fim desta reportagem, veja uma linha do tempo completa com as principais produções que retrataram o universo do jogo do bicho.
Por que o tema atrai tanto?
O fascínio pelo jogo do bicho vai muito além da aposta. Para o historiador e escritor do livro "Maldito Invento dum Baronete: Um Breve História do Jogo do Bicho", Luiz Antônio Simas, o jogo está entranhado na cultura das ruas e em suas contradições.
"O bicho dialoga com o botequim, com a esquina, com o mundo do samba e do Carnaval. Mas também dialoga com a violência, com a segurança, com as relações entre poder público e privado", explica.
Pai e filho, os bicheiros Miro e Maninho Garcia, retratados em "Vale o Escrito"
Divulgação
No entanto, curiosamente, não é o jogo em si o que atrai o público. "De cada 10 pessoas que eu conheço que amam filmes sobre o tema, nove não fazem a menor ideia de como se joga no bicho", conta.
Máfia: horror que seduz
A sedução que o público sente por séries como "Os Donos do Jogo" (Netflix) tem explicação: a dramaturgia brasileira encontrou no bicho a sua própria versão dos filmes de máfia.
André Lamoglia e Juliana Paes estrelam "Os Donos do Jogo"
Divulgação
"A máfia no cinema seduz mais do que horroriza. Ao mesmo tempo em que você mostra o horror, esse horror é sedutor. As pessoas se encantam pelo ambiente em que ele está inserido", analisa.
Mas Simas alerta para a diferença entre o documento e o entretenimento. Enquanto séries como "Vale o Escrito" (Globoplay) expõem dilemas reais, a ficção aposta no delírio e no romance.
Carnavalesco Milton Cunha em entrevista ao documentário "Vale o Escrito"
Divulgação
"O grande equívoco é tratar o jogo do bicho por apenas um viés: ou restringi-lo ao crime ou romantizar a contravenção", defende o historiador.
Malandro é malandro...
A figura do bicheiro na TV mudou nas últimas décadas porque o crime na vida real se transformou. O antigo "malandro" deu lugar ao bandido envolvido em lavagem de dinheiro e conexões internacionais.
Búfalo e Suzana em festa da escola de Samba na série 'Os donos do jogo'
Reprodução: Netflix
Para o historiador, as séries documentais recentes abandonaram a visão romântica para mostrar a teia real da contravenção. "Quem comanda o jogo não é o sujeito na esquina, são as altas esferas do poder".
Fim do jogo do bicho?
Para o historiador, o jogo do bicho como conhecemos está com os dias contados. O motivo é geracional: o bicho não renovou seu público.
"O jogo do bicho não representa nem 15% do faturamento do complexo criminoso que envolve a contravenção atualmente. É raríssimo aparecer alguém com menos de 40 ou 50 anos jogando", observa.
A 'cúpula' dos bicheiros em "Os Donos do Jogo", da Netflix
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Essa mudança esvaziou o faturamento direto do jogo. "O jogo é quase um elemento pitoresco. O complexo estendeu seus tentáculos para a lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas", afirma.
E é justamente essa transição do "negócio de bairro" para o crime transnacional que as produções recentes tentam capturar. Anitta entra para elenco de 'Corrida dos bichos', novo filme dirigido por Fernando Meirelles.
Os 20 títulos selecionados pelo g1 em ordem cronológica.
Amei um bicheiro (1952)
Boca de Ouro (1963)
Bandeira 2 (1971)
Mário Fofoca (1983)
Partido Alto (1984)
O Rei do Rio (1985)
Mandala (1987)
Fogo no Rabo (1988)
Sai de Baixo (1999)
Senhora do Destino (2004)
A Grande Família (2006)
Lara com Z (2011)
Giovanni Improtta (2013)
Doutor Castor (2021)
Lei da Selva (2022)
Vale o Escrito (2023)
Vai Que Cola (2023)
Volta por Cima (2024)
Os Donos do Jogo (2025)
Corrida dos bichos (2026)
Jogo do Bicho: linha do tempo mostra representação nas telas dos últimos70 anos
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1952
Amei um bicheiro (filme): Carlos (Cyl Farney) é um jovem ambicioso que sai do interior e vai para o Rio de Janeiro, onde acaba se envolvendo com o jogo do bicho. Depois de um tempo na cadeia, resolve mudar de vida ao se casar com Laura (Eliana Macedo) e viver honestamente.
Filme "Amei um bicheiro", com Grande Otelo, Eliana e Cyl Farney
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1963
Boca de Ouro (filme): Boca de Ouro (Jece Valadão) é o chefe do jogo do bicho em Madureira, no Rio de Janeiro. Após a morte do Boca, o repórter Caveirinha (Ivan Cândido) decide ir atrás de Guigui (Odete Lara), antiga amante do bicheiro. O filme ganhou uma segunda versão, em 2019, dirigida por Daniel Filho e protagonizada por Marcos Palmeira.
Boca de Ouro (1963), Nelson Pereira Dos Santos
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1971
Bandeira 2 (novela, TV Globo): Com 179 capítulos, a novela faz um retrato do submundo dos chefões do jogo do bicho no Rio de Janeiro, a difícil e constante luta pela sobrevivência nas zonas mais pobres da cidade, e da busca por realizações profissionais.
1983
Mário Fofoca (série, ficção, TV Globo): Na trama, o detetive vivido por Luis Gustavo se muda para o Rio e, com a ajuda de um amigo, passa a investigar casos de infidelidade. No enredo do episódio "O Rei dos Bicheiros", a investigação sobre a suposta traição de um contraventor termina em um acidente que deixa os envolvidos irreconhecíveis.
1984
Partido Alto (série, ficção, TV Globo): A produção retrata a vidas de moradores da Zona Sul e do subúrbio carioca. No episódio 122, Piscina (José Mayer) diz a Jussara (Betty Faria ) que irá tirar Jorginho (José Mayer) da casa do bicheiro.
1985
O Rei do Rio (filme): Baseado na peça O Rei de Ramos, de autoria de Dias Gomes. Tucão (Nuno Leal Maia) e Nico Sabonete (Nelson Xavier) são dois empregados do bicheiro Cacareco. Buscando melhorar de vida, o ambicioso Tucão convence seu amigo a tomar alguns pontos de Cacareco (Milton Gonçalves) para começarem suas próprias carreiras no jogo do bicho.
Pôster do filme "Rei do Rio", lançado em 1985
Divulgação
1987
Mandala (novela, TV Globo): A trama das 20h trazia Tony Carrado (Nuno Leal Maia) como um dos personagens centrais. O bicheiro era retratado sob uma estética que misturava o "cafona" ao romântico, sendo temido no submundo da contravenção carioca ao mesmo tempo em que se submetia à paixão pela protagonista Jocasta (Vera Fischer).
Tony Carrado (Nuno Leal Maia)
Divulgação
1988
Fogo no Rabo (série, TV Globo): ‘Fogo no Rabo’ foi uma paródia da novela ‘Roda de Fogo’, exibida em 1986, no programa TV Pirata. No 8º episódio da primeira temporada, Reginaldo (Luiz Fernando Guimarães) decide ir para Atlantic City com Penélope e um grupo de bicheiros.
1999
Sai de Baixo (1999-2002) (série, ficção, TV Globo): No episódio "Anta na cabeça", da quarta temporada, Vavá (Miguel Falabella) arranja um emprego de apontador de jogo do bicho. Coincidentemente a sorte da família muda porque Magda resolve jogar no touro, ganha uma fortuna e vira bicheira.
2004
Senhora do Destino (novela, TV Globo): O famoso personagem Giovanni Improtta, bicheiro interpretado por José Wilker, foi tirado de um livro de Aguinaldo Silva e se popularizou junto ao público por frases como “Não esqueça do meu lema: com Giovanni Improtta não tem problema”. Ele conhece Maria do Carmo (Suzana Vieira) na prisão.
2006
A Grande Família (2001-2014) (série, ficção, TV Globo): No episódio "Tuco Mãos de Tesoura" (6ª temporada), Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) tenta passar a perna como apontador do jogo do bicho por influência do bicheiro Dentada (Alexandre Zacchia), mas acaba sendo desmascarado. Ao final do episódio, a polícia leva todo mundo para delegacia. "Jogar no bicho é crime"', diz um dos policiais. "Peraí, crime, não. É uma contravenção", rebate Beiçola.
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2011
Lara com Z (série, ficção, TV Globo): Um dos personagens da produção, Agenor Improtta (Othon Bastos) é chefe de uma família de bicheiros e primo de Giovanni Improtta, o célebre contraventor imortalizado por José Wilker na novela “Senhora do destino”, também escrita por Aguinaldo Silva.
Othon Bastos vive bicheiro em série da Globo
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2013
Giovanni Improtta (Filme): Na adaptação para o cinema, o clássico bicheiro vivido por José Wilker tenta oficializar sua posição social e entrar para o restrito clube de grandes contraventores. A trama foca na transição do personagem das ruas para as esferas de poder.
2021
Doutor Castor (série documental, Globoplay): Em quatro episódios, a produção conta a história de Castor de Andrade, bicheiro responsável por crimes cruéis no Rio de Janeiro. Entre as décadas de 80 e 90, ele foi o principal responsável por grandes times do Bangu, que chegou a jogar uma final de Brasileiro, e pela mudança de patamar da Mocidade Independente de Padre Miguel, que se firmou como uma das grandes escolas de samba do Rio.
2022
Lei da Selva (série documental, Prime Video): Dividida em 4 episódios, conta como a loteria criada para financiar um jardim zoológico nos moldes da máfia italiana, foi incorporada pela cultura popular carioca e se transformou num imenso império do crime.
Luiz Antônio Simas em entrevista ao documentário "Lei da Selva"
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2023
Vale o Escrito (série, ficção, Globoplay): Série documental que detalha a árvore genealógica e as guerras de poder das principais famílias de bicheiros do Rio de Janeiro.
Shanna Garcia dando entrevista na série Vale o Escrito, da Globoplay
Reprodução/Globoplay
Vai Que Cola (série, ficção, Multishow): No episódio “Bicheiro do Deserto”, Bebeto (Paulinho Gogó) decide abrir uma banca do bicho nas Arábias, mas depois de criar muita confusão, pede para Terezinha (Cacau Protássio) ajudá-lo a sair dessa vida
2024
Volta por Cima (novela, TV Globo): Isabel Teixeira viveu a viúva de um grande contraventor. Durante a trama, a personagem também acaba se envolvendo no Jogo do Bicho. Atriz chegou a dizer em entrevista que "Vale o Escrito" virou fonte de estudo para interpretar a personagem "Violeta"
Isabel Teixeira interpreta Violeta Castilho em "Volta Por Cima"
Divulgação
2025
Os Donos do Jogo (série, ficção, Netflix): Suspense que explora a disputa pelo controle do Jogo do Bicho no Rio de Janeiro entre quatro poderosas famílias: Guerra, Moraes, Fernandez e Saad.
2026
Corrida dos bichos (filme, Prime Video): Distopia ambientada em um Rio de Janeiro futurista, onde o jogo do bicho evoluiu para uma competição de parkour de alta tecnologia com apostas milionárias. A produção ainda não tem data de estreia.
Assista ao trailer de 'Corrida dos bichos'